segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Adoro a minha avó Lurdes


 miau.pt
Para mim, a minha avó foi sempre velhinha. Não me lembro da minha avó sem rugas. É essa a imagem que guardo da minha avó. Grandes bochechas, nariz de batata, lábios fininhos e uma pele vincada de rugas profundas. Um ar bem fofo e bonacheirão. Não a posso comparar com outra avó porque não conheci mais nenhuma mas tenho a certeza que a minha avó Lurdes era especial.
Se por um lado era a avó tradicional de saia travada e de lenço na cabeça ou de bata azul escura às florzinhas. Aquela que me deixava chafurdar na cozinha enquanto ia trabalhar. Quando a cozinha ficava por minha conta, eram ovos, farinha, açúcar, canela, laranjas, limões, chocolate… ia de tudo. Depois misturava tudo muito bem enquanto ia falando sozinha como se fosse a Filipa Vasconcelos a falar para telespectadores imaginários. Falava, misturava, falava, provava, falava, esperava, empratava, falava, lavava e esperava que a minha avó chegasse. Quando ela chegava fazíamos um chá preto chalado e a pobre comia com um ar de satisfação os meus “bolos”. Estivessem eles queimados, mal cozidos, muito doces ou sem sabor (o que eram quase todos). E dizia ela muito satisfeita: “Está muito bom filha.” Aquela que fazia sopa de tomate sempre que lhe pedia. Sopa, que comíamos em pratos dos cavalinhos feitos em Sacavém, e como nunca mais voltei a comer. Aquela que me fazia um puré de cenoura sem verduras flutuantes, massas, arrozes ou outros que tais. Aquela que me chamava para junto dela para aprender a cozinhar porque teria que saber cozinhar quando arranjasse um marido. Aquela que me punha a estender a roupa e que me fazia pendurar tudo o que não tivesse o número certo de molas ou a mola no sítio certo, de forma a não deixar marcas. Aquela que não me deixava assobiar (o que eu passava a vida a fazer enquanto ia sonhando com histórias de príncipes e princesas). “Filha, não assobies… já te disse. Olha que não te casas.”. Eu fechava logo o bico até me voltar a esquecer das graves consequências de tão inocente comportamento.
Por outro lado a minha avó tinha o seu lado menos convencional. Aquela que não gostava de andar de cuecas… então dormir com elas era impensável. Mesmo que durante o dia andasse com aquelas cuecas de gola alta que se compram nos armazéns do Martim Moniz aos conjuntos de 12, à noite só a camisa de dormir. Aquela que fingia acreditar que eu me levantava às 6 da manhã para ir correr (o que aliás detesto fazer) com a minha amiga, quando na verdade ela sabia que era uma artimanha minha para ir ver o pôr-do-sol com o meu namoradinho. Aquela que fingia que acreditava que ia dormir a casa da Joana, quando até sabia que eu iria passar a noite na doca de Belém ao frio, mas quentinha, ao lado do meu namoradinho enquanto este pescava com os seus amigos. Aquela que um dia me falou de amor e sexo. Que me contou que se tinha entregue ao verdadeiro amor da sua vida e que não se arrependia disso, apesar de eles não terem podido ficar juntos. E dizia-me ela: “Filha, por mais anos que passem vou amar sempre aquele padeiro porque deixei com ele um bocado do meu coração que não cheguei a dar ao teu avô. Até o podes vir a fazer com homens que achas que amas mas quando o fizeres com o amor da tua vida é com ele que o teu coração vai ficar sempre… aquele bocado de coração fica para sempre com ele. E fiquem juntos ou separados vão estar sempre ligados por um sentimento que não morre, o amor verdadeiro.”  

Adoro a minha avó Lurdes

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