quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Adoro o meu avô Alberto

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Não acredito em coincidências. Sim, é verdade!!! Mas por vezes exagero. Enquanto tirava  o meu curso universitário, onde passei o tempo a falar de tomates e couves, comecei a desconfiar que talvez aquela não fosse a minha praia. Porém, os anos foram passando e quando olhei para mim estava de camisa branca aos folhos de renda, de calções pretos pelo joelho, sabrinas de plástico, uma capa cravada de emblemas universitários (acho que até tinha o da Super Bock apesar de detestar cerveja) e um malmequer de peluche no braço a ser acenado no meio de milhares de finalistas na Benção de Finalistas. Depois perguntavam-me que área gostava de seguir. Tentava, bem no fundo do meu cérebro ,dar uma resposta com alguma coerência. Eu dizia: "Tomates!!! Eu quero é trabalhar com tomates" e para tornar a coisa mais realista explicava às pessoas que desde pequenina que gostava de tomates. "Raposinha, queres vir com o avô à horta?" Perguntava-me o meu avô no quintal. Em segundos estava junto dele de enxada na mão pronta para a lavoura. Como eu gostava de estar com o meu avô... Apesar da sua perseguição constante para que eu não andasse pelo quintal sem cuecas com o pipi, ou a passarinha como ele dizia, à mostra (hummm começo a ver aqui um precedente). "Ó pariga" Dizia ele para a minha mãe, "vai vestir umas cuecas à menina que anda com a passarinha à mostra. Rebéubéu rebéubéu. Que desenvergonhice". Mas apesar do meu avô não me dar toda a liberdade que eu queria eu adorava estar com o meu avô. Era capaz de ficar tempos infindáveis só a vê-lo cortar pão duro às fatias, com a sua navalhinha. Eu esperava, esperava. Era como se o brilho da lâmina me encantasse. No final vinha a melhor parte... íamos dar comer aos coelhinhos. Tão fofinhos e macios. E quando haviam bebés?? Aí então era a loucura. "Pipipipipipipipi". Chamava assim as galinhas o meu avô. Eu repetia de milho na mão "pipipipipi". E elas vinham. Vinham as vaidosas das mais peludas, as de pescoço careca mais alternativas, as "cócós" sempre com os pintainhos atrás e depois o "Chico", o dono daquele harém de penas. Então e os tomates onde entram nesta história??? Por vezes quando chegava a casa já o meu avô tinha estado na horta. No quintal havia uma mesa grande com dois bancos corridos de madeira, feita de tábuas gamadas nas obras, por baixo da sombra de uma videira. Eu era pequenina de forma que o meu campo visual não alcançava toda a superfície da mesa. Mas alcançava as beiras. E o meu avô Alberto sabia disso. Eu chegava e vislumbrava logo na beira da mesa uns quantos tomates maduros acabados de apanhar. O cheiro dava para sentir no portão. Então eu pegava num a um e deliciava-me... Bem vermelhos, agridoces e ainda mornos do Sol. Estranhamente só quando acabava é que o meu avô aparecia e questionava sempre "Mas onde estão?? Raposinha viste os tomates que deixei aqui?". Até parecia que tinha estado escondido a ver-me deliciar com os tomates. Eu olhava para ele inclinava a cabeça, fazia a espécie de um sorriso maroto e ele ria para mim. O meu avô não era rico, nem lá perto, mas tinha um prazer enorme de me poder dar o que de melhor fazia com o trabalho dele. E isso, valia mais que muitos milhões de escudos. Existem duas opções de lição para o que meu avô queria transmitir com esta cena. Ou era "Tem os tomates sempre à mão" ou "Dá sempre o melhor de ti às pessoas que amas. Ainda que aos olhos dos outros possa parecer muito pouco, aos olhos da pessoa a quem o dás vai valer uma recordação para a vida". Eu acredito que seria a segunda...

Adoro o meu avô Alberto

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